Autora: Nadia Hashimi
Título Original: The Pearl that Broke its Shell
Páginas: 448
Ano: 2017
Editora: Arqueiro

Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar.
Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre.
Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul.
A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos.

Rahima é uma menina de apenas nove anos que vive em um país com grandes dificuldades. O Afeganistão está em guerra há alguns anos e tantos pessoas dentro de seu território quanto fora dele querem as riquezas que o país pode oferecer. E o problema é que a pobreza também afeta as famílias menores e das pequenas cidades. E Rahima é de uma família assim. Suas irmãs são mais velhas, porém viver com um pai que guerrilha junto de um homem poderoso e que nunca fica sóbrio quando está em casa é um martírio.

A única opção e conforto é a escola, onde elas podem frequentar, desde que os meninos não as olhem e não as persigam, já que a tradição do país diz que se um homem ficar atrás de uma mulher ela se torna impura. E é assim que pensam todas as pessoas. A família de Rahima não conseguiu gerar um herdeiro e sua mãe se tornou amaldiçoada pela família do marido. 

Outro consolo é a tia Khala Shaima, uma solteira que não conseguiu se casar por causa de seu defeito nas costas, já que isto é visto como uma maldição, apesar de que a irmã mais velha de Rahima também ter uma condição igual. Khala é uma alma nobre que cuida das sobrinhas como se fossem suas filhas e nunca desiste delas, mesmo que isto enfureça Padar-Jan, o pai das meninas.

"A sobrevivência de Shekiba foi nada menos que um milagre, outro presente de Alá. Embora seu rosto tivesse sarado, ela não era mais a mesma. Desse dia em diante, Shekiba ficou dividida ao meio. Quando sorria, apenas metade do rosto sorria. Quando chorava, apenas metade do rosto chorava." Pág. 24

Com a raiva de Padar-Jan, certo dia ele decide que as filhas não poderão mais voltar para a escola. A forma encontrada para fazer com que pelo menos a filha mais nova, Rahima, continue indo para a escola e frequentando lugares na cidade é que ela se torne uma bacha posh, que é uma menina que se torna um menino até os dez anos de idade. E é assim que Rahima passa a viver os seus dias, até que uma grande confusão faz com que Padar-Jan decida casar as suas três filhas mais velhas com homens cruéis.

Ao saber que aos treze anos teria que se casar com um homem com o triplo de sua idade, o desespero de Rahima foi imenso. Não somente isto mas também saber que Parwin, com sua deficiência teria que encarar uma família ruim que a maltrataria. E assim sua tia começou a contar a história de Shekiba, uma trisavó que por conta do destino passou pela mesma experiência, e que poderia fazê-las entender que em um mundo em que os homens acreditam que a crueldade reina, tudo pode mudar.

"Badriya não teve nenhuma dificuldade em me colocar para trabalhar. As outras também não viam nenhum problema. Embora houvesse muitas criadas no complexo, as mulheres pareciam ter um prazer especial em me fazer assumir as tarefas mais servis, especialmente porque eu me atrapalhava." Pág. 177

Shekiba nasceu em uma família extremamente humilde. Seu pai, mãe e irmãos trabalhavam arduamente na terra para prover a comida que precisavam. O problema é que aos três anos de idade Shekiba sofreu um grave acidente que deixou parte do seu rosto deformado para sempre e assim todas as pessoas tinham repulsa ao olhar para ela.

Depois de toda sua família morrer com uma grave doença, Shekiba fica anos sozinha até seus parentes resolverem que a terra de seu pai deve ser disputada e ela morar com sua avó e outros familiares. É neste momento que começa o sofrimento de Shekiba com o tratamento diferenciado, sendo tratada como escrava.

Em idas e vindas Shekiba acaba sendo dada como escrava para o rei e volta a se tornar uma bacha posh em um reino cheio de mistérios. Agora há uma possibilidade maior de conforto e dedicação, além da liberdade de viver como um homem. Porém novos acontecimentos vão mudar os rumos de toda uma história.

"De certa forma, acho que ela era a mais corajosa de todas nós. Parwin, minha irmã dócil e tímida, foi quem tomou uma atitude no final. Ela foi a única que mostrou aos que a cercavam que já havia suportado abusos demais. Como Khala Shaima disse, todo mundo precisa de um escape." Pág. 195

Aos poucos depois de ler esta obra fui me adaptando ao que tinha lido. Foi uma experiência diferente em questão de cultura e totalmente enervante em alguns momentos sobre como as mulheres eram tratadas. Sofri imensamente ao ler as cenas onde as mulheres passam pela tradição do casamento, da noite de núpcias, do que são cobradas e do que os homens esperam delas. É uma coisa tão cruel que me vi querendo rasgar as páginas em muitos momentos.

E então me dei conta de que a realidade é exatamente esta. Um lugar onde as mulheres não tem uma opção de escolha e que vivem na sombra do medo e das agressões físicas o tempo todo. 

E é por esta razão que acredito que nós seres humanos já perdemos há muito tempo um pouco da humildade e dor amor condicional ao imaginar que o outro deve ser jogado à própria sorte. Luta-se por direitos iguais enquanto em outros países uma mulher é morta por apedrejamento por um motivo simples.

A autora sobre como expressar o sentimento sobre a sua origem, desde o início do século passado até as guerras que ocorreram no país e as consequências geradas disto tudo. Rahima e Shekima são entrosadas em capítulos diferentes para mostrar como mesmo em gerações distintas o tratamento acaba sendo o mesmo.

 

Só li verdades em um cenário castigante, em uma cultura rica porém acostumada a ser usurpada pelo tempo e pelos interesses políticos. Uma obra que com certeza vai afetar o emocional e o sentimento e trazer à tona as mais diversas sensações. É como um grito no escuro, um pedido de socorro que, espero eu, chegue logo a todas as nações que tendem a traduzir seu lema em sacrificar sua espécie.




23 Comentários

  1. Não conhecia essa obra mas acho interessante optarmos por leituras de outras culturas para entendermos o conceito de cada país, por mais doloroso que isso seja. Eu também sofreria muito com esse livro, mas ainda assim fiquei bastante interessada, se ela marcou o seu emocional, sei que ela é excelente.

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    1. Sim, justamente por isto optei por esta leitura. Pela questão de conhecer culturas novas.

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  2. Eu vi esse dias esse livro em algum blog< mas não tinha me interessado, agora lendo sua resenha percebi o quanto é tocante e sim eu amo livros nessa pegada acho que qdo o livro consegue expor certas coisas mexe demais e sim te entendo a vontade de querer rasgar as paginas eu já joguei livros longe por não aceitar muitas coisas.

    Bruna
    https://odiariodoleitor.blogspot.com.br/

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    1. Que bom que gostou, por mais que choque a gente acaba vendo o quão nossa realidade é diferente.

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  3. Menina, eu to chocado nessa resenha D:
    Que livro pesado né? Quando vi que se tratava do Afeganistão eu já sabia que vinha coisa tensa por aí, mas depois de ler sua resenha eu fiquei ainda mais chocado.
    Com certeza é um livro que eu gostaria muito de ler, apesar de saber todo o sofrimento que ele traz.

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    1. Ai, sabe que eu sofro demais com estas coisas. A gente tenta abraçar os personagens, sabe?

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  4. Greice, essa é a segunda resenha que leio desse livro e só confirmou a minha necessidade de fazer tal leitura.
    Acredito que pra mim sera um difícil leitura, por toda essa dramática envolvida, ainda mais quando sabemos que ela tem um fundo mais real do que imaginamos.

    Beijos.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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    1. Sim, imagina como é ver na realidade as cenas citadas nos livros?

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  5. Heiii, tudo bem?
    EU fiquei mtooo curiosa com o livro, mas a verdade é que nao consigo ler algo assim, acho que me choca mto e o pior é saber que é tudo verdade, que assim ate hoje la.
    Mais amor por favor na humanidade pelas mulheres!
    Linda resenha, mas ainda vou pensar se encaro, pois sei que é forte a historia.
    Beijos.

    Livros e SushiFacebookInstagramTwitter

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  6. Olá, tudo bom?

    A nossa realidade, apesar de ser difícil para as mulheres, nem se comparam com o que acontece no Oriente Médio. As vezes, lendo alguns relatos, fico chocada com o que acontece com as mulheres, principalmente as mais novas. Onde já se viu uma pessoa ser obrigada a se casar aos 13 anos com uma pessoa com o triplo da idade dela? Ela deveria estar brincando, na escola, sonhando com o futuro... Não sendo obrigada a ser casada com ninguém. Alguém que tem algum defeito físico ou deficiência ser amaldiçoado? Em vez de ver algo que possa melhorar a sua qualidade de vida, ela é repelida na sociedade?
    Sim, também ficaria enervada com algumas coisas que você já citou, nem imagino os sentimentos que terei ao ler realmente. Sei que sofrerei com a leitura, mas ela é necessária para aprender mais sobre essa cultura e entender que, realmente, as pessoas perderam a sua humanidade.

    Enfim, adorei a postagem e agradeço a indicação :)
    Abraços.

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    1. Pois é, chega a ser ridículo e imagina que isto lá é normal? Como pode um absurdo destes? Meninas tendo filhos e a maioria ainda morre no parto?

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  7. Olá Greice, tudo bem?

    Eu perdi esse lançamento, porque acabei solicitando outros à Arqueiro, mas depois não sabia ao certo se me arrependeria ou agradeceria por isso. Eu disse em outra resenha que tenho um grande problema em ler livros que tem o enredo que se passa no oriente, então provavelmente acabaria largando um livro tão bom só por isso :s

    Beijo
    @blogodiariodoleitor

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    1. Eu te entendo porque pensava a mesma coisa sobre a questão do Meio Oriente, mas a história acaba tendo um peso tão grande que isso passa despercebido.

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  8. Olá Greice,

    Esse livro está na minha lista de desejados e essa é a primeira resenha que leio dele, imagino o quanto a história é linda e difícil, gosto do gênero demais e bom saber que também gostou...bjs.


    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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  9. Oi, Greice

    Eu fiquei muito na dúvida sobre solicitar ou não esse livro acabei optando por não fazê-lo, por ser uma cultura muito diferente e por se afastar muito do que eu costumo ler. Mas as resenhas começaram a sair e foi batendo aquele arrependimento, sabe?
    Só de ler as resenhas eu fico revoltada com o tratamento que as mulheres recebem, imagina, ter que se fingir de homem para ter um pouquinho de chance na vida?
    Realmente é uma realidade que muitas mulheres ainda enfrentam e o mundo não está nem aí. Não é questão de cultura... uma cultura que mata, que oprime, que violenta, que segrega, não pode ser levada a sério!

    Beijos
    - Tami
    http://www.meuepilogo.com

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    1. Eu também estava na dúvida sobre isso mas resolvi arriscar, também fiquei com medo de ler.

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  10. Oi, tudo bem?
    Tenho visto muitas resenhas sobre esse livro e confesso que, ao mesmo tempo que minha curiosidade foi despertada, também tenho um certo receio.
    Como você disse, a realidade é esta que está apresentada no livro e acredito que isso torne a leitura muito dolorosa. Se por um lado, me me pareceu um livro necessário, por outro eu sinto que deve ser muito difícil encarar a realidade que ele apresenta.
    De qualquer forma, adorei sua resenha e vou anotar a dica. Não pretendo ler nesse momento, pois estou procurando leituras mais leve, mas quem sabe futuramente, né?
    Beijos!

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    1. Sim, a realidade é bem difícil mesmo, porque não temos o costume de ver aquilo que está descrito lá.

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  11. Oiee Greice ^^
    Esse livro é uma obra prima, né? Não sai da minha cabeça que, como sociedade, alguns países achem mais razoável uma menina fingir ser menino do que ser ela mesma. Ao mesmo tempo em que acho isso ridículo (não querendo dizer que somos melhores do que eles, mas SABENDO que todos, como seres humanos, podemos fazer melhor do que isso), também acho assustador - o que impede a nossa sociedade de fazer o mesmo no futuro?
    Eu amei esse livro, senti tanta coisa ao lê-lo - de raiva a amor - que me senti marcada de uma maneira que só livros assim conseguem fazer <3
    MilkMilks ♥
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br/2018/01/underground-airlines.html

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    1. Esse livro é um tapa na cara da sociedade ocidental, mas o ideal seria mudar este conceito de lá.

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  12. Olá!
    Nossa sua resenha está linda e bem convidativa!
    Vi o lançamento da Arqueiro mas acabei fazendo outras solicitações. Lendo o desenrolar dessa história certamente vou me emocionar com a história dos personagens.
    Dica anotada!
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  13. Nossa! Ao mesmo tempo que esse livro nos mostra uma realidade, mostra também o quanto alguns lugares são agressivos, principalmente com as mulheres. O bom do livro é ver outra cultura, conhecer outra tradição. O lado ruim disso é ver o sofrimento de mulheres, de pessoas, assim como nós.

    www.porredelivros.com

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  14. Estou lendo um outro livro que se passa na Índia e é um absurdo que antigamente queimavam as viúvas!

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